II Jornada Fronteiras em Movimento: o discurso e suas materialidades em composição
Estamos em um mundo cada vez mais mobilizado por relações significantes diversas e que demanda o sujeito em modos de resistir, sempre na diferença, formulada por materialidades distintas. É importante ressaltar que essa demanda sobre o sujeito se dá simbólica e materialmente, e que compreender o funcionamento e a circulação dos discursos é uma tarefa que convida o analista a lançar seu olhar e sua escuta para as composições materiais em sua pluralidade e heterogeneidade, sempre sob a perspectiva da contradição. Retomamos Pêcheux ([1984] 2011, p. 157)¹ para reafirmar que nos filiamos a uma “concepção materialista da discursividade na qual os efeitos do interdiscurso não se resolvem em um ponto de integração, mas se desenvolvem em contradições”.
Analisar o discurso em suas composições materiais significa estar atento aos objetos simbólicos em suas “condições significantes de existência” (Lagazzi, 2023, p. 316)², e, aqui, parafraseamos Pêcheux ([1984] 2011, p. 151-152) quando fala das “condições verbais de existência” dos objetos. O analista precisa estar atento ao modo da formulação e, em nosso momento atual, é importante que observe o modo pelo qual a imbricação material tece sentidos nos objetos simbólicos. A prática analítica discursiva requer que prestemos atenção à linguagem, em seus diferentes modos significantes, sempre no batimento entre a estrutura e o acontecimento. No trabalho da interpretação que se produz sobre composições materiais, o analista de discurso vai buscar o trajeto dos sentidos pelos diferentes modos da formulação, sempre sob o primado do significante, perguntando pelas materialidades significantes em imbricação que compõem o objeto em análise, no modo pelo qual esse objeto materializa discursos.
Todo percurso materialista de análise, em que a compreensão do funcionamento discursivo vai se produzindo no batimento entre a descrição e a interpretação, precisa de uma pergunta que permita ao analista o recorte sucessivo do material escolhido. Uma boa análise só se produz a partir de uma boa pergunta discursiva. Nesta jornada, apostamos na potência das perguntas para que o debate cumpra seu papel mobilizador teórica e analiticamente. Apresentamos, nas ementas dos cinco simpósios propostos, um conjunto de perguntas que delimitam possibilidades de questionamentos para as pesquisas que serão debatidas em cada simpósio. Nosso intuito não é responder a todas as perguntas e nem chegar a respostas conclusivas, e, sim, provocar os simposistas na relação com suas pesquisas, para que essas provocações retornem no coletivo em debates importantes para o dispositivo discursivo materialista.
Simpósio "Imbricações Materiais nos Movimentos Sociais"
Como as imbricações materiais afetam os sentidos de ‘movimento’ em movimentos sociais diversos? Quais fronteiras marcam as tensões e contradições entre os movimentos sociais e os movimentos do social? Sob quais condições materiais esses movimentos estão em interlocução com o alhures? De que maneira a insolência dos movimentos do social pode abrir brechas na interdição estatal como modo de resistência? De que forma a resistência dos/nos movimentos sociais se inscreve em diferentes materialidades significantes? Como os movimentos sociais estabelecem discursivamente um “resistir a”, um “resistir para” e um “resistir em”? De que maneira os movimentos sociais podem significar movimentos do sujeito no social? De que modo os apelos humanistas e liberais da nossa formação social participam do processo de significação do que se lê hoje como movimentos sociais? Que objetos simbólicos reafirmam ou ameaçam a necessidade de movimentar o social dado o atual contexto de guerras globais?
Simpósio "Imbricações Materiais no Jurídico"
Quais os espaços de circulação do discurso jurídico? Há restrições para sua circulação? Quando falamos do discurso jurídico, do que falamos? Que objetos simbólicos enfatizam o discurso jurídico em circulação? Que objetos simbólicos dão visibilidade a relações de imbricação material no discurso jurídico? Podemos pensar o discurso jurídico fora de relações de imbricação material? Que divisões se apresentam entre a escrita das instituições jurídicas e outros modos de formulação do discurso jurídico? Tendo como enfoque os sentidos de cidadania e democracia, quais objetos simbólicos reiteram esses sentidos pela imbricação material e quais os colocam em discussão? Os sentidos de igualdade e liberdade, tão cultuados em nossa sociedade capitalista, ficam enfatizados em quais relações de imbricação material? De que maneira o discurso jurídico em diferentes imbricações materiais abre possibilidades para a resistência, a deriva, a brecha, o deslocamento? Os tensionamentos sociais podem estilhaçar o discurso jurídico?
Simpósio "Imbricações Materiais nas Tecnologias"
De que modo o encontro de diferentes imbricações materiais com diferentes tecnologias de linguagem produz efeitos sobre o funcionamento do discurso? Como esse encontro participa dos processos de constituição, formulação e circulação de sentidos? Como descrever e interpretar a imbricação de diferentes tecnologias de linguagem em suas especificidades? Quais processos de identificação são engendrados a partir do funcionamento tecnológico-discursivo? Quais diferenças os espaços digitais apresentam frente a outras formas de tecnologia? Como podemos compreender discursivamente o "digital" ou os "espaços digitais" hoje? De que forma o digital afeta a montagem de arquivos?
Simpósio "Imbricações Materiais nas Artes"
Como compreender a composição de diferentes materialidades significantes na relação com o discurso artístico para além da dicotomia forma-conteúdo? Quais são as formas e os espaços de circulação do discurso artístico? Há condições específicas de imbricação material para que o discurso artístico mobilize o social? De que maneira as práticas artísticas em diferentes materialidades possibilitam o movimento nas muitas formas de resistir? Como o discurso artístico mobiliza o (extra) ordinário no cotidiano da cidade em suas distintas possibilidades materiais? Quais as condições contemporâneas de interdição do discurso artístico? Como as materialidades artísticas mobilizam a relação entre memória e atualidade? De que modo a arte pode ser o lugar de compreensão das materialidades em movimento na constituição dos sujeitos, dos sentidos e dos sentires?
Simpósio “Imbricações Materiais na Cidade”
Como a forma material da cidade impacta nos processos de formulação, constituição e circulação de sentidos? Quais imaginários de cidade são mobilizados a partir da imbricação de diferentes materialidades significantes? Como os sentidos se espacializam em diferentes imbricações materiais na cidade? De que maneira podemos analisar a cidade em suas formas de resistência? Como analisar as resistências em suas formas materiais se inscrevendo no espaço urbano? Como se atualiza o batimento entre memória e esquecimento em intervenções urbanísticas que se marcam por construções, demolições, reformas, remanejamentos, deslocamentos? Que relações simbólicas são operadas no processo de disputa pelo espaço urbano? Como dar visibilidade à materialidade das ausências que permeiam a cidade? De que modo construir arquivos citadinos? Como compreender o político e o poético que constituem as fronteiras citadinas? De que forma analisar as fronteiras em suas contradições? Como dar consequência teórica e analítica ao cotidiano que percorre e constitui o urbano?
¹ PÊCHEUX, Michel [1984]. Metáfora e interdiscurso. In: ORLANDI, Eni (org.). Análise de Discurso: Michel Pêcheux. Campinas: Pontes Editores, 2011. p. 151-161.
² LAGAZZI, Suzy. Materialidade Discursiva: “Não se pode dizer não importa o quê”. Diálogos com Analistas de Discurso: reflexões sobre a relevância do pensamento de Michel Pêcheux hoje. Grigoletto, Evandra; Carneiro, Thiago César da Costa (org.). Campinas, SP : Pontes Editores, 2023. p. 314-319; E-book: 7 Mb; PDF.